quarta-feira, 28 de dezembro de 2011






RIO - O réveillon ambientalmente correto que a prefeitura quer promover em Copacabana para celebrar a realização em 2012 da Conferência de Meio Ambiente Rio+20 ganhou a sua primeira polêmica. A fogueteira Vivian Pires, responsável pelo show pirotécnico, planejou a queima de fogos de modo a iniciá-la com uma cascata de fogos verdes. Mas os fogos esverdeados - menção ao evento marcado para junho - não poderiam ser mais ecologicamente incorretos. O material que confere o tom esverdeado é o nitrato de bário, considerado por especialistas como o mais poluente entre todos os produtos químicos para colorir fogos.
O nitrato de bário é um produto usado no mundo todo em shows pirotécnicos. Trata-se da única substância barata disponível no mercado internacional em larga escala para conferir o tom esverdeado. A substância já foi usado antes, inclusive no réveillon do Rio, sem problemas. Mas o que chama a atenção desta vez é que "o efeito verde" festejará um evento ambiental internacional.
Os químicos George Steinhauser (austríaco) e Thomas M. Klapötke (alemão), em edição recente da revista germânica especializada "Angewandte Chemie" ("Química Aplicada", em português), explicam o problema: "Fogos de artifício, apesar de serem instrumentos espetaculares de entretenimento, são poluentes. Muitas substâncias tóxicas chegam ao meio ambiente quando há detonação de fogos (....). De todas as substâncias, o nitrato de bário que produz o efeito químico esverdeado é a mais suja de todas as bombas".
O secretário municipal de Turismo, Antonio Pedro Figueira de Mello, disse que o formato do espetáculo pirotécnico será mantido. Segundo ele, tudo foi planejado minuciosamente desde setembro. Ele destacou que o mais importante é que, pela primeira vez na história da festa, haverá compensação ambiental pela emissão de gases do efeito estufa. Espécies nativas da Mata Atlântica serão plantadas na bacia do Rio Guandu, em Miguel Pereira, que abastece os mananciais da água potável da capital.
- Não sou um especialista em química, mas há anos o nitrato de bário é usado na Praia de Copacabana. A proposta é usar a festa para despertar a consciência da população para a questão ambiental - diz o secretário.
O analista ambiental Rogério Rocco, do Instituto Chico Mendes, criticou o show pirotécnico tendo a Rio+20 como uma das referências.
- O problema é que o Brasil e o mundo não tem propostas claras para preservação do meio ambiente. O réveillon dará mais uma demonstração disso - disse Rocco.
Para o assessor de meio ambiente da prefeitura do Rio, Sérgio Bessermann, o caso é mais uma demonstração de que o modelo de exploração do planeta tem que ser repensado.
- Simbolicamente, não é bom festejar a Rio+20 assim. Mas esse é mais um reflexo do nosso padrão atual de consumo, onde quase tudo provoca poluição. Para as delegações chegarem ao Rio haverá o consumo de milhares de galões de combustível de aviões. A nafta da aviação é uma das substâncias mais poluentes do mundo - diz Sérgio Bessermann.
O presidente da Sociedade de Amigos Copacabana (SAC), Horácio Magalhães, criticou a associação da Rio+20 com o os fogos do réveillon.
- É um contra-senso. O emprego e fogos mais ou menos poluidores deveria ser um dos critérios de avaliação para a homenagem - disse.
A Pirotecnia Igual, empresa responsável pelos fogos, divulgou nota oficial na qual informa tomar todas as providências para minimizar os efeitos ao meio ambiente da queima de fogos. "As substâncias que serão usadas para produzir as diferentes cores são encontradas na natureza e usadas em outras aplicações comuns, como tintas e plásticos, e não apresentam nenhum perigo nas concentrações usadas. Os fogos que serão usados são homologados nos países com legislações ambientais das mais rígidas do mundo, como países da Comunidade Europeia e os EUA", diz trecho da nota.
Sobre a concentração de bário, o engenheiro químico professor da PUC-Rio Wilson Bucker Aguiar Junior, consultor da Pirotecnia Igual, informa na nota que a queima será equivalente "ao deságue de uma hora de um rio pequeno no mar". Com isso, o impacto no oceano seria nulo, avalia.
Por Luiz Ernesto Magalhães (luiz.magalhaes@oglobo.com.

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